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Ela

ELA
I
RODRIGUES DE ABREU (Benedito Luís de Abreu)*
Onde ela passa qual estrela,
Célere e luminosa,
Varrendo a escuridão da vida humana,
O carvão da miséria
Faz-se bendito lume,
Atraindo as mãos frias
De velhos e crianças
Que soluçam na sombra.
Onde ela passa docemente,
Por divina visto
Entre as campas do mundo,
Toda planta esmagada
Reverdece de nova
Ao brilha da esperança.
Onde ela passa generosa,
Sabre a lama da Terra,
Lírios brotam do charco,
Perfumados e puros,
Coma bênçãos do Céu
Projetadas no lodo.
Ninguém lhe ouviu jamais qualquer palavra
De azedia ou censura.
Apenas a vaidade muitas vezes
Lhe toma a retaguarda
E espalha a pessimismo
Nos corações, em torno,
Comentando, agressiva,
A torva indiferença
Dos que bebem a sós
O vinho da ilusão
E devoram cruéis,
O pão da mesa farta,
Dando sobras ao mofo,
Atolados na usura
Que a aura anestesia.
Ela passa, entretanto,
Nobre, serena e bela,
Em profundo silêncio,
Educando e servindo
Sem que ninguém lhe escute
Sequer o próprio hálito...
Porquanto, em tudo e em todos,
E’ sempre a Caridade — a Luz que veio de Deus.
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(*) Poeta, teatrólogo, educador. Escreveu nos principais jornais e revistas dos
Pais. Tendo sido a infância de RA uma das mais afanosas, iniciou ele o curso primário
em Piracicaba, completando-o em S. Paulo. Depois de muitas reviravoltas por diversos
colégios, de outras cidades, regressa o poeta à Capital paulista, onde passa a lecionar.
Posteriormente, transfere-se para sua terra natal, desencarnando, mais tarde, em
Bauru. Péricles Eugênio da Silva Ramos (in Lit, no Brasil, III, t. 1, página 538)
classifica RA como poeta modernista não «histórico» e acrescenta, adiante, que ele